Novas oportunidades de mercado são tema do Fórum Estadual do Trigo

Usina de etanol e avanços na nutrição animal podem transformar cultura em solução estratégica

A pauta do biocombustível foi um dos temas dominantes do 11º Fórum Estadual do Trigo, realizado no terceiro dia da Expodireto Cotrijal 2026. O assunto já tinha ganhado notoriedade no 36º Fórum Nacional da Soja e na entrega da Licença Prévia (LP) para a implantação da indústria de biocombustível Soli3, em Cruz Alta.

O trigo, tradicionalmente visto como uma cultura de inverno para subsistência do sistema ou voltado exclusivamente à panificação, tem potencial para ser protagonista como matriz energética e industrial estratégica, com o Rio Grande do Sul liderando essa transformação.

O grande motor dessa mudança é a construção da nova usina da Be8 em Passo Fundo. Com um aporte estimado em R$ 1,7 bilhão, o projeto é um dos maiores investimentos privados recentes no estado e promete mudar a dinâmica da triticultura a partir de 2027. A iniciativa foi apresentada ao público no fórum pelo vice-presidente de Operações na Be8, Leandro Luiz Zat. Segundo ele, a planta não será apenas uma destilaria, mas um complexo de verticalização.

A estimativa é que a unidade demande 500 mil toneladas de trigo por ano, o que representa um salto de 25% na demanda total do Rio Grande do Sul. Conforme Zat, a escolha pelo trigo levou em conta um ajuste fino de rentabilidade e logística. "Enquanto o milho precisa ser importado para suprir o déficit local, o trigo sobra no inverno gaúcho. Encontramos o equilíbrio financeiro para transformar esse excedente em energia e proteína de alto valor", destacou.

A usina operará em um sistema de "desperdício zero", gerando quatro subprodutos fundamentais: etanol de trigo, glúten vital, DDGS e CO₂ industrial. O etanol de trigo contribuirá para suprir o déficit de importação de diesel, que hoje é de 20% no Brasil. Já o glúten vital é uma proteína concentrada para indústrias alimentícias e pet food (atualmente, o Brasil importa a maior parte deste insumo). Os Grãos Destilados de Milho com Solúveis (DDGS -farelo proteico), são um subproduto rico em proteína para alimentação animal, otimizando a cadeia de carnes. Por fim, o CO2 industrial, que será capturado e purificado para o setor de bebidas.

Trigo como solução para o déficit de milho

Outro assunto do fórum foi a viabilidade do trigo na ração animal, abordado pela pesquisadora Teresinha Marisa Bertol, da Embrapa Suínos e Aves. Segundo Teresinha, o trigo "FEED" (destinado à nutrição) é uma alternativa técnica e econômica viável para escassez crônica de milho, situação enfrentada pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Estudos da Embrapa demonstraram que é possível substituir 100% do milho por cereais de inverno (trigo ou triticale) na dieta de suínos sem perda de desempenho ou rendimento de carcaça. "O suíno tem uma capacidade digestiva que permite aproveitar muito bem a energia desses cereais", explicou a pesquisadora. Ela ressaltou que, quando o preço do farelo de soja sobe, a viabilidade do trigo aumenta, pois o grão entrega mais proteína que o milho, reduzindo a necessidade de outros complementos caros.

A análise de mercado e de produção foi tema do terceiro painel do fórum, conduzido pelo economista e especialista em trigo da Safras & Mercado, Elcio Bento, com uma análise para o ciclo 2026/2027. O especialista alertou que a intenção de plantio para a próxima safra pode cair até 15% devido aos altos custos de produção e à relação de troca desfavorável. Atualmente, o produtor precisa de mais sacas de trigo para comprar a mesma quantidade de adubo do que em anos anteriores.

Bento explicou que, com a redução da produção doméstica e o cenário geopolítico instável por conta da guerra na Ucrânia e o conflito do Oriente Médio, os preços internos tendem a buscar a paridade de importação, o que pode aumentar as cotações no segundo semestre de 2026. "A necessidade de importação do Brasil será a maior desde 2006, o que deve sustentar os preços para quem decidir investir na cultura", previu o economista.

Trigo como preparador do solo

No último painel do evento, os agrônomos Giovani Faé, da Embrapa, e Tiago Horbe, da CCGL, defenderam que o sucesso do trigo não deve ser medido apenas pelo lucro direto, mas pelo benefício ao sistema. "O produtor que empata no trigo já está ganhando pois, a cultura mantém a biologia do solo ativa, recicla nutrientes e deixa a palhada ideal para a safra de soja no verão", defendeu Faé. O representante da Embrapa fez menção aos problemas que o estado enfrenta em seu solo, assunto abordado no Fórum de Conservação do Solo e da Água no segundo dia da feira. Os profissionais enfatizaram que a adoção de genética para trigos com maior teor proteico será o passaporte para o produtor acessar o mercado premium das novas indústrias de etanol e glúten.

Para o produtor e empresário do agronegócio Jairo Faccio, 70 anos, a nova planta de etanol de trigo em Passo Fundo surge como uma saída estratégica para um gargalo histórico. Com campos em Casca e São Gabriel, Faccio produz o cereal há 54 anos.

“Essa usina é uma grande solução. Hoje, nossa logística para levar o trigo ao Nordeste, com impostos de 7% ou 12% (ICMS), tornou-se inviável. Perdemos competitividade tanto no Norte quanto no Sudeste”, analisa Faccio. Segundo ele, a alternativa tem sido a exportação, mas muitas vezes feita por necessidade de liquidez, e não por lucro. “Exportamos para fazer caixa, não por margem, porque o custo de produção está ‘nas nuvens’ e a indústria nacional precisa comprar barato para competir em São Paulo”, explica.

Ainda participaram do evento o subsecretário de Irrigação do Estado, Márcio Amaral, representando o secretário Edivilson Meurer Brum, da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e o diretor-executivo da Fecoagro/RS, Sérgio Luis Feltraco. O Fórum do Trigo é uma promoção da Cotrijal, Seapi e da Câmara Setorial do Trigo do RS.


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